Este texto não é uma análise política.

Tenho pouquíssimo conhecimento na área para manifestar uma opinião consistente a respeito da eleição de Donald Trump, e dos impactos socioeconômicos globais da parada toda.

O que gostaria de propor, porém, é uma reflexão sobre o comportamento humano. Sim, sobre a minha e a sua postura diante das supostas aberrações que, dia-a-dia, impactam nossas vidas.

O mundo acompanhou ontem, chocado, a eleição do presidente talvez mais polêmico da história dos EUA. Vejo cidadãos brasileiros inconformados. Coxinhas, petralhas, nessa hora pouco importa: somos todos anti-Trump.

Interessante como é fácil, diante da tragédia, vestir nossa capa de superioridade. Dizer que americano não sabe votar. Desejar a vinda de um meteoro. Proclamar aos quatro ventos que o mundo está perdido.

Quantos profetas pós-modernos se levantam! Vejo noticiários e timelines lotados de especialistas em ciência política e economia internacional. Todos ávidos por darem suas opiniões, mesmo que ninguém as tenha perguntado.

Porque, claro, temos de nos posicionar. É do ser humano essa necessidade de desabafar publicamente. De repetir manchetes sensacionalistas sem sequer ler as matérias por completo. Temos pouca substância argumentativa (existe isso?) para defender nossos pontos de vista. Somos rasinhos, rasinhos.

Mas de uma coisa sabemos: detestamos o Trump. E o mundo está perdido. Lemos isso em algum lugar. Parece que faz sentido. Repetimos.

Pode até ser que faça sentido, mesmo. Mas, por favor, alguém me escuta: precisamos entender que não é a nossa timeline –  e nem os discursos parciais da grande mídia – que dão significado ao mundo!

Tanta informação disponível e tantas fontes duvidosas de conteúdo garantem apenas uma completa neblina sobre o que está, de fato, por vir. Nada mais é tão previsível. Ou você realmente acreditava nas últimas notícias bombásticas que politicamente empurraram o Brasil pra trás nos últimos meses?

Ontem, vimos um sujeito de moral questionável conhecido por suas declarações racistas, sexistas e xenofóbicas ser eleito por 58.893.697 votos norte-americanos. Será que são todos otários e inconsequentes, seus eleitores? Algum interesse há. Alguma motivação houve.

De novo, não vou entrar nessa seara. Quero, apenas, destacar algo muito forte em Trump que possivelmente deu a ele tanta força nessa corrida de mais de dois anos de campanha: ele se posicionou a favor de mudanças drásticas. Falou coisas que muitos queriam ouvir e poucos tiveram coragem de dizer. Coisas tenebrosas, sim. Sobre temas que representam medos velados de significativa parte das pessoas: terrorismo, imigração, empoderamento feminino, e por aí vai. Talvez eleger o Trump seja uma maneira de algumas pessoas conseguirem o que secretamente desejam, sem precisar assumir tais posições politicamente incorretas. Ter em quem botar a culpa de algo condenável socialmente que, no fundo, se queria.

Whatever. Disse que não ia entrar nessa discussão, e fico esbarrando nela. Vamos voltar ao foco: e eu com isso?

Pergunto-me se as pessoas que crucificam o discurso de Trump e vestem suas capas de superioridade entendem que são exatamente COMO ele quando dizem que nordestino é tudo folgado, corinthiano é tudo bandido, gaúcho é tudo gay, mulher que usa saia curta é tudo vagabunda.

Resta-me olhar para a minha realidade e fazer o que estiver ao meu alcance para não apenas uivar no megafone virtual que abomino Trump, mas efetivamente me policiar para não ser pior que ele.