No meio da reunião com meu cliente, toca seu celular. E, já sabemos: médicos precisam atender celulares imediatamente, não é mesmo? Se fosse eu, do outro lado da linha, numa emergência, gostaria muito que ele não demorasse nem mais um minuto. “Fica à vontade, doutor”, liberei, como se tivesse alguma autoridade para impedi-lo de atender a ligação de qualquer maneira.

Era outro gastroenterologista, seu colega de profissão. Pedia-lhe a opinião sobre um caso complicado. Ressecção inferior do reto de algum sujeito em maus lençóis.

Sempre achei que não devia ser tão exata a ciência da medicina. Muitas possibilidades, percentuais e probabilidades. E não poucos imprevistos, complicações, acidentes de percurso. Por isso, confesso: tinha curiosidade de estar presente naquele tipo de discussão médica.

Mas, por algum motivo, senti-me bastante incomodada ali. Eles falavam de uma pessoa. Um ser. Vivo. Humano. Um cara que devia ter família, história, esperança.

Em meio a muitas argumentações científicas e ponderações técnicas, o final daquela ligação me deixou surpreendentemente feliz. Há esperança na humanidade. Meu cliente concluiu:

– Ouve um grey hair, amigo. E desligou.

Será que eu tinha ouvido direito? Grey hair? Ouvir um grisalho? Tive de perguntar:

– O doutor disse “grey hair”?

– Sim, claro. Experiência conta, minha filha.

Era aquilo mesmo que eu tinha entendido: o doutor mandou o colega pedir conselhos a médicos mais velhos antes de tomar sua decisão cirúrgica.

Olhei novamente para o doutor à minha frente. Não era recém-formado, inexperiente, inseguro. Muitíssimo pelo contrário. Ah, se vocês soubessem. Era dos bã-bã-bãs. Renomado, conhecido, especialista. Da Globo e tal.

E, depois daquela conversa extensa, no auge de sua experiência profissional, aquele médico estava aconselhando seu colega a ouvir um grey hair. Porque experiência conta.

Que aula de humanidade eu tive naquela reunião… O doutor não estava preocupado com sua reputação diante do colega. Zelou pelo compromisso ético com sua profissão, de buscar o melhor para aquele paciente. Aquela pessoa que devia ter família, história, esperança.

E eu aqui, achando que sou boa no que faço e não preciso de parceiros.

E você aí, com medinho de pedir conselhos e “se expor diante dos seus pares”.

E os grey hairs lá, morrendo com seus baús cheios de tesouros que não foram descobertos por ninguém.